Este país também é para velhos

por Paulo Baldaia, Director da TSF

Com muita frequência queixamo-nos do Governo, queixamo-nos dos patrões, do colega do lado, do vizinho, do motorista do autocarro, de tanta gente E quase nunca nos queixamos de nós próprios.

Lutamos para garantir que teremos direitos quando formos velhos, mas esquecemos facilmente os direitos dos velhos de agora. E, se não somos capazes de dar dignidade aos velhos que nos permitiram ser quem somos, não somos nós dignos de sonhar com uma velhice feliz.

Estamos a construir uma sociedade tão injusta que chega a ver como obstáculos gente feita de experiência e saber. Viciados no consumo, a olhar para o nosso próprio umbigo, temos medo de olhar para aquilo que um dia também nós vamos ser.

Porque somos assim, as estatísticas mostram que crescem sem parar as queixas dos idosos contra os insultos que lhes dirigem e as agressões de que são vítimas. E, porque somos seres humanos, não devíamos sequer aceitar uma só dessas agressões.

Ontem, a TSF mostrou ao longo do dia como ser velho em Portugal pode ser bem pior do que nunca ter lá chegado, mas também mostrou mensagens de esperança. Afectos que chegaram de Valpaços, onde os idosos são olhados como um bem precioso, servem para mostrar como pode ser tão fácil ajudar alguém a ser mais feliz.

Não é uma pieguice pegada parar para pensar numa parte deste país que acha que não há lugar para os velhos. É, aliás, parando que somos capazes de perceber como precisamos de lutar para ter uma sociedade mais justa. Não depende de governos, não depende de políticas, depende de cada um de nós.

Ser velho neste país de velhos pobres é ainda mais difícil. Vivem com pouco e pedem pouco e bom seria que não lhes atrapalhássemos ainda mais a vida. Temos de ser mais solidários, encontrar minutos da nossa vida que ajudem a acabar com a solidão. Encontrar poupanças na nossa riqueza que ajudem a acabar com a fome.

Sou filho da minha mãe, mas quantas mães mais existem por esse país fora a valer tanto como a minha? Sofro ao ver que entre os milhares de idosos agredidos, verbal e fisicamente, 80% são mulheres.

A mãe que é minha viveu, e vive ainda, a sua vida para garantir que a minha vida é exactamente o que eu quero que seja. E como poderia eu fazer mal à vida dela? Como pode, quem quer que seja, insultar um velho, agredir uma velha? Velhas são as cabeças de gente nova que é incapaz de dar um pouco de si a quem lhes deu tudo.

Sejamos claros. O país faz-se com todas as gerações, solidariamente, dando hoje o que vamos querer amanhã. E se eu receber metade do que me deu a velha da minha mãe, então terei a hipótese de ser o velho mais feliz do Mundo.

Dos meus pais só recebi coisas boas, como poderia pensar pagar-lhes noutra moeda? É um país doente, este que castiga os idosos só por serem idosos. É um país condenado, este que vive de egoísmos sem sentido.

A culpa não é dos governos, a causa não são as políticas. Se não somos capazes de respeitar quem já não se pode defender, não seremos capazes de merecer os afectos que nos chegam de Valpaços. Eu já decidi o meu voto Este país também é para velhos.

Paulo Baldaia escreve no JN, semanalmente, aos sábados
5/04/2008